A idade de 9 anos foi também um marco...era época da COPA de 86, a primeira copa que me lembro. Lembro que minha mãe comprou uma camisa do Brasil a qual usei muito.
Ter me livrado de Jota foi muito bom para mim embora esta época também tenha sido marcada por uma ausência maior de minha mãe (já tinha meu pai que trabalha demais), que resolveu que iria trabalhar e meu pai montou um negócio para ela comprando uma loja numa galeria ali na Saens Peña, vendia roupas femininas...Eu adorava ir até a loja da minha mãe, entrava na vitrine e fingia que era um manequim. Em frente a loja tinha uma sorveteria e o dono que era conhecido de minha mãe sempre me dava sorvete... meu pai passava de carro a noite para fechar a loja com minha mãe e irem para casa. Meu pai tinha uma Marajó, um carro que tinha uma mala grandona e eu adorava ir atrás na mala junto com a bagunça das coisas da loja.
Comecei a usar óculos para minha desgraça pois começaram e me chamar de "lerda caolha" na escola... pra piorar Moema rima com um monte de coisas, e aos 9 anos o "bullying" disparou em cima de mim na escola, eu era a Molema Mocréia Mozema Moela Molerda etc etc etc. Como na minha sala da escola eu era a que tinha uma das melhores condições sociais, tinha material escolar superior aos demais colegas que me pediam de tudo emprestado. Eu ingenuamente emprestava tudo e por conseguinte acabava também por perder tudo na tentativa de agradar e me tornar mais respeitável aos babacas dos meus coleguinhas que me chamavam de Lerda o dia inteiro.
Chegando em casa eu era de novo a rainha, a única menina da vila e a mais velha, era respeitada pelos meninos. Dani era meu vizinho que eu mais brincava. Dani era meu amigo, e até hoje ainda temos contato. A mãe de Dani fazia bolo e doce para as crianças da vila nos finais de semana e a gente se esbaldava, e eu gostava tanto dela que passei a chama-la de madrinha. Como minha mãe nem meu pai tinham religião, nunca fui batizada, deixaram eu escolhe-la para ser minha madrinha.
Meu pai não deixava eu e meu irmão termos Atari, mesmo suplicando para ter... adoravamos joguinhos eletrônicos mas meus pais alegavam que não poderiamos ter pois tinham jogos violentos... Eu resolvi esse problema indo jogar Atari quase todo dia na casa do Dani.
Nessa época meu pai comprou um computador, um MSX Hotbit, e comprou alguns joguinhos bobocas que jogavamos quando ele não estava programando aqueles códigos esquisitos no computador. Eu era a única na escola que já tinha computador, impressora, antes do MSX, tínhamos um TK-82C que era ligado na tv para funcionar e os programas eram gravados e rodados em fita K7. Um dia levei um trabalhinho da escola impresso no computador e fui a sensação da sala aquele dia. Como eu era uma besta que sofria bullying sempre calada, achava que poderia ter respeito agradando meus colegas babacas e ficava imprimindo frases e qualquer coisa que meus coleguinhas pedissem e trazia para a escola.
Aos 9 anos... passei a ter um amigo imaginário... na minha mente ele se apresentava como um diabinho em forma de criança que me falava travessuras para eu fazer, as quais eu obedecia prontamente.
Eu ficava muito tempo com a Lina e meu irmão em casa enquanto minha mãe ficava na loja, meu pai no trabalho. Só os via a noite, mas só sentia saudade de meu pai.
Nessa época lembro-me que meu pai estabeleceu uma forte censura aos programas de TV, minha mãe determinava como eu tinha que me vestir. Eu ainda tirava a blusa e ficava só de short, e brincava assim na vila...
Um dia, escutei uma conversa entre minha mãe e o primo-irmão dela Jota, eles falavam baixo para que meu pai não escutasse e embora não tenha conseguido escutar direito me lembro dela falando e pedindo "pelo amor de Deus que não era para meu pai saber disso, pois ela o amava e que estava arrependida". Me lembro de ouvi-la repetindo sozinha "estou arrependida, estou arrependida". Somente depois de meus 30 anos descobri que nessa época minha mãe tinha traído meu pai.
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